Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie: uma leitura para se pensar #35

É incrível como, com o passar do tempo, a nossa visão de mundo vai mundo se ampliando. Passamos a perceber coisas que antes passavam batidas, comportamentos nocivos que antes achávamos normais se tornam intoleráveis. E grande parte disso nasce com o conhecimento que adquirimos nos desenrolar dos dias quanto através da busca por informações. Por isso, resolvi dividir com vocês, de forma bastante pessoal, as impressões de livros que tenho lido nos últimos tempos. Abrindo essa (tentativa de) série de resenhas, vamos conversar sobre o Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Decidi ler esse livro após ver uma enxurrada de elogios à autora, descrita como um ícone da causa feminista em seu país, a Nigéria, e no mundo. Comecei pelo Hibisco Roxo, mas confesso que já tenho mais dois livros dela na lista de próximas leituras.

Narrado em primeira pessoa, a obra conta a história da adolescente Kambili e de sua família, que é comandada pelo seu patriarca, Eugene, um homem religioso e, ao mesmo tempo, cheio de preconceitos contra o seu próprio povo. Catequisado por padres católicos brancos, o nigeriano renega suas tradições e inclusive o seu pai, a quem considera um pagão sem valor.

Mas não é esta a imagem geral do pai de Kambili, que é visto como um benfeitor pelos membros da sua comunidade. Rico, dono de várias fábricas e inclusive de um jornal de oposição progressista, o homem está sempre disposto a ajudar os pobres, tanto fornecendo comida, quanto emprego e educação.

No entanto, dentro da sua convivência familiar conhecemos outra pessoa: um homem violento, opressor, que não admite ser contrariado e que usa a religião para justificar seus constantes espancamentos.

Esse ambiente faz com que Kambili, que busca nunca desagradar o seu pai, desconheça sua própria identidade e força, sendo hostilizada pelas colegas de sua idade que a consideram esnobe por vir de uma família abastada, ignorando o impacto da timidez, causada pela vida doméstica violenta, em suas atitudes.

A visão de mundo da adolescente muda quando ela e seu irmão Jaja passam uma temporada na casa de sua tia, uma professora universitária que luta pelos direitos das mulheres em uma sociedade extremamente patriarcal.

Impressões

Vou te dizer: esta não foi uma leitura fácil. Não que a forma como Chimamanda escreve seja cansativa, longe disso. Entretanto, este não é um livro para passar o tempo. A autora é sutil, mas os assuntos tratados por ela são complexos e pesados, especialmente no tocante à violência doméstica. Inclusive, quem já viveu este tipo de situação pode ter esta mesma dificuldade em prosseguir com a história. Muitas vezes precisei parar, respirar, me distrair com outra coisa para depois voltar a ler esta história. Mas valeu a pena.

Já conversamos em outros textos aqui sobre os impactos da violência doméstica no desenvolvimento de crianças e adolescentes e este livro é certeiro em mostrar, a prática, este problema. É difícil encontrar o fôlego quando se é constantemente afogada. A delicadeza da autora, mesmo nas cenas mais fortes, me surpreendeu.

Claro que me apaixonei por Ifeoma, tia de Kambili, por sua força e delicadeza no tratamento para com os seus sobrinhos. Mesmo sem ter nem um quinto do dinheiro do seu irmão, e ainda ter três filhos para criar sozinha, após a morte do seu marido, ela mostra ser a mulher que desejamos nos tornar um dia: forte, inteligente e humana. De modo sutil, ajudou seus sobrinhos a verem que seu avô não era um enviado do demônio como seu irmão costumava pintar. Deu espaço para que os adolescentes tirassem suas próprias conclusões e conhecessem um mundo simples, mas mais afável do que encontravam dentro de casa.

Também vi muitas mulheres que conheci ao longo da vida representadas pela mãe de Kambili, Beatrice, a quem o medo da solidão e do que a sociedade iria achar de uma mulher divorciada faziam constantemente inventar desculpas para o comportamento do marido. Sabe aquela frase “não foi nada, só bati o rosto no armário da cozinha”? Então…

“Nwunye m, às vezes a vida começa quando o casamento acaba”, fala de Ifeoma à sua cunhada (mãe de Kambili) é uma das frases que achei mais marcantes na história.

hibisco_roxo

 

 

[Alerta spoiler! Se você ainda não leu, pule este pedaço do texto]

 

 

O final do livro foi diferente do que eu pensava. Mas mais coerente do que eu imaginava.

No fundo, achava que Jaja, em um impulso de raiva, acabaria matando seu pai e algoz. Mas faz sentido que a sua mãe tenha o feito, de modo silencioso, após ver Eugene espancar Kambili a ponto de ela quase morrer. Isso sem falar nos bebês que perdeu pelas surras que levou do marido. Faz sentido que tenha sido assim.

Foi importante ver as marcas que essa violência deixou nos personagens principais e a contradição da corrupção que surgiu na família logo após a morte do patriarca. O mundo não é preto e branco e as tonalidades de cinza são tão importantes quanto as cores primárias.

É nítido o crescimento de Kambili no final da história e a amargura de Jaja por não ter tomado a atitude da mãe antes dela. Os danos à saúde mental da mãe dos jovens, causados tanto pelos anos de abuso quanto pela atitude que se viu obrigada a tomar, também é evidente.

[Fim do spoiler]

Hibisco roxo é uma leitura que vale a pena, principalmente para que, como eu, conhecia pouco ou praticamente nada sobre a história da Nigéria. Inclusive, para quem deseja saber um pouco mais sobre o assunto, recomento o podcast Fronteiras Invisíveis do Futebol sobre o país. Ao contrário do que o nome aparenta, é um programa sobre história que tem apenas um bloco sobre futebol, usando o esporte para contextualizar o momento histórico abordado no episódio.

Se você, já leu esta obra ou algum outro livro da Chimamanda, conte o que achou dela e o que mais te impactou nesta história. Para mim, ele pede uma segunda leitura para pegar melhor as nuances e críticas deixadas pela autora nas entrelinhas, mas esta primeira impressão já me deixou inquieta.

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